Alix de Montal

O xamã não é apenas um personagem dotado de poderes estabilizadores e transcendentes, de algumas longínquas sociedades primitivas. Ele já não é visto somente como um técnico do êxtase, ligado ao sobrenatural e às entidades demoníacas. Seu caminho interior participa da mesma febre mística atemporal que caracteriza a mais assídua das buscas religiosas. E, se na aparência, o caráter mágico do xamã continua a ser sua assinatura, já não se trata simplesmente de um fim a ser atingido, mas do resultado tangível de um formidável poder pessoal adquirido com o tempo por meio da vontade. Esse poder não advém de um domínio qualquer das pulsações íntimas, muito menos de um combate psicológico travado contra nós mesmos.

A dualidade xamânica é exercida entre o homem e a natureza – mais precisamente, entre o mundo e a idéia que o homem faz dele. É através do transe extático, manifestação última e espetacular de sua implicação no mundo, que o xamã rompe essa defasagem temporal e ilusória. Seu universo é um mundo simbólico, ao qual, paradoxalmente, ele atribui mais poder do que à propria realidade.

O xamanismo é um scerdócio que requer não não só verdadeira mística da faculdade mágica, mas também o envolvimento total de um ser responsável pela alma humana. Ele seria, assim, ao mesmo tempo uma religião sem dogma e uma profissão de utilidade pública, conciliando um conhecimento intuitivo e pessoal com a necessidade de agir.

Enquanto “técnica do êxtase”, o xamanismo é um fenômeno religioso da Ásia Central e Setentrional (povos altaicos, buriatas, samoiedos, iacutes, tungus, voguls, etc) e das regiões árticas norte-européias (lapões). Encontram-se fenômenos xamânicos similares entre os esquimós, índios das Américas; do Norte, Central e Sul; na Oceania, na Austrália, no sudeste asiático; e enfim, na Índia, no Tibete e na China. Trata-se, aqui, de um conjunto de práticas evidentemente adaptadas e amalgamadas a cada cultura, a cada crença, mas que em toda parte apresenta o mesmo conteúdo mágico, religioso e simbólico.

A palavra xamã vem do tungue siberiano ‘saman’, aparentando com o sânscrito ‘sramana’ e com o pali ‘samana’, que significa “homem inspirado pelos espíritos”.

O xamanismo deve, pois, ser entendido como a sobrevivência clandestina de crenças ancestrais de que são testemunhas numerosos documentos pré-históricos do Paleolítico (e nada nos impede de pensar que essa tradição é ainda mais antiga).

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