Festivais Sazonais

Por Rupert Sheldrake:

O meio mais óbvio por cujo intermédio a vida das comunidades humanas se liga à terra e aos céus são os festivais sazonais encontra­dos nas sociedades do mundo inteiro. Esses festivais são relacionados com os ciclos do Sol, da vegetação e da vida animal. Até mesmo as vidas dos modernos moradores de cidades ainda são ordenadas em ciclos anuais, graças aos mais importantes dias santos tradicionais.

Para os pastoreadores, caçadores e agricultores, os padrões anuais de atividade humana estão profundamente entrelaçados com as estações, os movimentos dos animais e o crescimento das plantas. Fazem parte dos ciclos sazonais da natureza; não são independentes deles. Os festivais sazonais expressam, em forma cerimonial, essa participação de todo o grupo social nos ritmos do mundo vivo.

Na Europa pré-cristã, os quatro grandes festivais solares eram festejados em tomo dos dias mais curtos e mais longos, os solstícios de inverno e de verão, e dos dias em que a noite e o dia têm igual duração, os equinócios da primavera e do outono. Todas essas datas sagradas foram assimiladas pelo cristianismo; o festival do solstício de verão tomou-se o dia de São João; o festival da primavera, a Páscoa, que é uma festa móvel, pois de~ tanto do Sol como da Lua (o Domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo depois da lua cheia que ocorre durante o equinócio da primavera, ou pouco depois dele; do mesmo modo, pouco depois do equinócio do outono comemora-se a Festa de S. Miguel e de Todos os Anjos; e, naturalmente, o festival do solstício de inverno, que se converteu no Natal.

Na Europa Setentrional e na América do Norte, o Natal incorporou uma ampla variedade de antigas associações simbólicas. O nascimento da criança sagrada está ligado ao renascimento do ano solar, quando os dias recomeçam a se tornar mais longos. No armar e no decorar a árvore de Natal há uma veneração contemporânea da sagrada árvore cósmica, a permanente fonte da vida e da renovação. O próprio Papai Noel pode ser reconhecido como um xamã visitante, vindo das geladas regiões do Norte – na verdade, da Lapônia, o último posto avançado do xamanismo na Europa – voando através dos ares com a sua rena.

Entre esses quatro festivais solares havia os quatro festivais do fogo, no começo de novembro, de fevereiro, de maio e de agosto. O festival do início de novembro era o ano novo celta, o tempo em que os espíritos dos mortos retomavam, à medida que o velho ano ia cedendo lugar ao novo. Essa data tornou-se a do grande festival cristão dos mortos, ainda celebrado como Dia de Todos os Santos, em 01 de novembro, e Dia de Finados, em 2 de novembro. Na Inglaterra, o velho costume de queimar uma imagem humana do ano velho, na forma de um homem (costume esse ligado à tradição do sacrifício humano pelo fogo) sobrevive na forma do Dia de Guy Fawkes, em 5 de novembro.

* A véspera da festa dos mortos, Halloween, ainda é celebrada na América do Norte e em outros lugares com nabos e abóboras escavadas à semelhança de crânios, e o espírito malicioso do trick or treat ** é um eco longínquo das orgias e reversões da ordem social encontradas no mundo inteiro em épocas críticas do ano, representando um breve retorno ao caos primordial, estado a partir do qual a ordem do cosmos é recriada.

O festival do fogo, no início de fevereiro, foi cristianizado como a Candelária, a festa da purificação de Nossa Senhora, no dia 2 de fevereiro; o festival de agosto foi cristianizado como Lammas***, em 11 de agosto, quando os primeiros frutos da colheita eram santificados. Mas o Dia 11 de Maio permaneceu o festival de Maia, deusa pagã da fertilidade, em cuja homenagem esse mês deve o seu nome. Na Ingla­terra do século XVII, essas festividades escandalizaram os puritanos, que fizeram o máximo que puderam para suprimi-Ias:

Jovens e donzelas, velhos e mulheres, correm ao léu, durante toda a noite, em direção às florestas, aos bosques, às colinas e às montanhas, onde passam a noite inteira em deleitosas diversões; e de manhã retornam, trazendo consigo varas e ramos de árvores, para com eles enfeitar  suas reuniões … Mas a joia mais valiosa que trazem de onde vêm é o seu May-pole (Mastro de Maio), que levam para casa com grande veneração … Esse mastro é todo coberto com flores e ervas, atado com fitas ao seu redor, que caem de cima para baixo, e é às vezes pintado com cores variadas … E sendo este levantado, com lenços e bandeiras flutuando no topo, eles espalham a terra ao seu redor, fincam ramos verdes aqui e ali, erguem pavilhões de verão, abrigos de folhagem e caramanchões perto dele. E, ao redor dele, entregam-se à dança como o faziam os Pagãos em sua dedicação aos ídolos, dos quais esse é o perfeito modelo, ou melhor, a própria coisa’

Os temas das grandes festividades anuais são universais – a morte do velho, o nascimento do novo, a fertilidade das pessoas, dos animais, das plantas e da terra. Até mesmo hoje, no mundo secularizado do Ocidente, os antigos símbolos ainda retêm algo do seu poder. Na Páscoa. os ritos que comemoram o sacrifício de Jesus sobre a cruz, seu se­pultamento e sua ressurreição relembram a morte e a ressurreição de deuses da fertilidade do velho mundo, tais como Átis e Osíris, bem· como os sacrifícios anuais de reis sagrados ou de outras vítimas hu­manas para assegurar a fertilidade da terra.’ Além disso, se acham associados com as festividades da Páscoa outros antigos símbolos de fertilidade, tais como coelhos, ovos e pintinhos.

No Ocidente urbano industrializado, esses festivais sazonais ainda nos lembram nossa participação comunal nos ciclos da natureza. Entrando no espírito desses festivais, podemos ligar os aspectos materiais de nossas vidas com seus aspectos sociais, míticos e espirituais. Assim, por exemplo, o jantar norte-americano do Dia de Ação de Graças não é apenas um delicioso banquete do peru assado, da torta de abóbora, e assim por diante; não é apenas um festival social, quando as famílias e os amigos se reúnem; não é apenas uma recordação ritual dos heroicos pais e mães fundadores; não é apenas um agradecimento pela abundância da terra e pela graça de Deus. Combina todos esses elementos e, além disso, sua qualidade ritual, arraigada na tradição, relaciona os modernos norte-americanos com todos aqueles que celebraram essa festividade antes deles; ajuda a definir sua identidade como norte-americanos.

* Comemora-se, nesse dia, a prisão de Guy Fawkes, conspirador que tentou explodir o Parlamento em 1605.

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Trata-se da fórmula “mágica” que as crianças pronunciam de porta em porta no Dia das Bruxas. O dono da casa deve lhes oferecer um festim, isto é, guloseimas (treat). Se o recusar, as crianças lhe atiram um feitiço (trick).

*** Esta palavra deriva do inglês arcaico, e fazia referência à consagração, nes­se dia, de pães preparados com os primeiros grãos amadurecidos.

 

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