Quiron e o Xamanismo

 

Venho compartilhar texto de *Malanie Reinhart*, extraído do seu livro : Quíron e a Jornada em Busca da Alma – Rocco, onde ela discorre sobre as raízes xamânicas do mito.

Dentro de um contexto histórico, o xamanismo floresceu no Paleolítico em povos caçadores e coletores; nos dias atuais, são poucas as culturas primariamente xamânicas que ainda sobrevivem, à exceção de certas tribos nativas da África e das Américas. Em seu livro Up From Eden, Ken Wilbur utiliza a expressão “tifônica” para referir-se a qualquer figura metade animal e metade humana, bem como descrever o tipo de consciência que prevalecia há cerca de 200.000 a 50.000 anos. A imagem mítica de Quiron tem obviamente sua origem nessa antiga forma de consciência.

Proporciona também uma pista para seu sentido astrológico no horóscopo, sentido corroborado por observações dos acontecimentos desencadeados durante seus primeiros trânsitos .

Sugere a reemergência de uma antiga visão do mundo, que repousa adormecida nos substratos de nossa própria psique individual e que talvez estejamos sendo exortados a resgatar.

Tanto a mente ou sensibilidade tifônica quanto a iniciação xamânica caracterizam-se por uma experiência direta do campo de força subjacente à infinidade forma percebidas pelos nossos sentidos.

A consciência racional especializa-se na discriminação, na análise e classificação; em contraste, a consciência de tipo xamânico é holística e capaz de intuir diretamente o significado de acontecimentos pessoais, bem como a luminosidade e a interligação da vida como um todo incluindo os mundos além da morte física.

A denominada consciência “primitiva” encerra paradoxos que confundiriam por completo uma consciência linear e racional típica do homem ocidental, impregnada da visão newtoniana-cartesiana do mundo.


Uma vez que a mente ainda não está desenvolvida, ela não tem a capacidade de diferenciar-se do corpo e, por conseguinte, o self igualmente permanece incorporado no corpo e dele não se diferencia…só muito mais tarde, em seu caminho evolutivo, é que o homem aprendeu a distinguir claramente o self do corpo – na verdade, essa diferenciação iria infligir-lhe uma grave lesão entre self e corpo, entre ego e carne, entre razão e instinto. Contudo, antes dessa época, o self e o corpo estavam mais ou menos fundidos e confundidos, ou seja, estavam totalmente indiferenciados. O anjo e o animal, o homem e a serpente eram apenas um.

Historicamente, portanto, o período xamânico caracteriza-se por um tipo de vida tribal, estando a individualidade de cada homem inserida dentro de uma totalidade que abrangia sua família e seus antepassados, bem como o mundo da natureza e, inclusive, a vida como um todo, sendo esta quase sempre percebida como reflexo de várias divindades cosmológicas. Por conseguinte, a individualidade de uma pessoa não existe como entidade isolada, porém adquire sua validade quando considerada em relação à comunidade e à posição que nela ocupa. Nossa ferida é exatamente essa inexistência de relação e constitui, pois, a doença da qual padece a nossa sociedade ocidental industrializada

O xamã é aquele que inicialmente é posto à parte em sua tribo pela força de suas experiência religiosas e visões pessoais : cumpre-se a “percepção hierofântica”, a percepção de algo muito mais amalgamado, que habita tanto o mundo externo quanto a nossa própria experiência interior, conferindo a todas as coisas um caráter sagrado. Uma vez aceita sua vocação, o xamã passa a ser altamente respeitado dentro de seu grupo, exercendo considerável influência em virtude de sua vocação como curandeiro, intermediário, adivinhador e visionário. Os xamãs têm quase sempre visões de advertência para a sua comunidade e têm atuado como fonte a partir da qual a vida espiritual da coletividade pode ser renovada e enriquecida.

Entre os Zulu, o chefe Kraal (povoado) também atua como sacerdote e, com a colaboração de um adivinho, protege o bem-estar de seu clã; o “pastor do céu” é responsável por trazer chuva. Em Zimbabwe, toda família Shona tradicional possui um médium espírita para ajudar a manter uma rede harmoniosa de relações entre os vivos e os mortos, pois consideram-na essencial para a saúde tanto da terra quanto daqueles que nela habitam.

Por conseguinte, o xamã é o guardião de uma herança de acesso direto ao mundo sagrado inacessível à maioria das pessoas, bem como o protetor das almas da comunidade. Os conhecimentos específicos podem ser transmitidos de um xamã a outro, e sua jornada interna pessoal pode ser relatada através de várias formas de expressão artística, como pintura, música, dança e narração de histórias.

Todavia, a essência das experiências do xamã e seu impacto transformador são singulares e peculiares ao indivíduo e, portanto, intransferíveis.

Os sinais de vocação espontânea podem surgir em qualquer idade e, em geral, são acompanhados de alguma doença física ou mental ou de ambas. Quando criança, é muito provável que o candidato tenha sido nervoso, retraído e pensativo. Ele ou ela pode apresentar alguma deformidade ou deficiência física. Em algumas culturas, notavelmente a africana e a dos esquimós, a epilepsia é considerada como sinal de vocação xamânica. Entre os Shona, quando uma doença não responde as formas convencionais de tratamento (geralmente herbário), a família convoca um nganga (xamã). Se este declarar ser a doença um sinal de vocação, intercederá em nome do espírito que está tentando possuir a pessoa, e se ele ou ela concordar em atuar como médium a aceitação da vocação será acompanhada de recuperação. A recusa é interpretada pela maioria das sociedades xamânicas como grave erro que quase certamente findará em morte.


À Medida que o processo de iniciação torna-se cada vez mais profundo, pode haver ruptura da vida normal, e o neófito pode retirar-se do mundo cotidiano; esse isolamento pode dar-se várias vezes no decorrer de prolongado período de tempo. Assim, por exemplo, podem ser necessários cerca de sete anos de total dedicação ao processo para que o neófito seja qualificado sangoma (adivinhador e curandeiro) no sul da África.

Em toda tradição xamânica o candidato deve passar por um período de intensa provações psicológicas, físicas e espirituais, correspondendo à “viagem noturna pelo mar” no inconsciente, para utilizar uma expressão ocidental.

Morreu para o seu antigo self; entra em comunhão com os espíritos e o mundo da natureza como prelúdio de seu futuro papel de intermediário entre o reino da natureza, a vida humana e os espíritos, pois o xamã é o canal para a comunicação entre espécies.

Ele deve adquirir a capacidade de atravessar a terra dos mortos e dela retornar para desenvolver e consolidar as habilidades necessárias a seu futuro ofício.

Melanie Reinhart escreveu, que para descrever alguns dos aspectos arquetípicos da viagem empreendida pelo xamã, é necessário consultar a princípio o mapa do território cosmológico através do qual deverá viajar.

As antigas práticas xamânicas quase sempre envolvem uma elaborada cartografia do mundo subterrâneo. Nas culturas ocidentais a compreensão dessa viagem era, até pouco tempo, um tanto rudimentar.

Muitos estados supranormais de consciência aos quais os xamãs atribuem valor potencialmente curador quando manipulados de forma correta são por nós patologizados, rotulados, suprimidos com drogas ou com atitudes negativas e, talvez até mesmo somatizados em doença fatal.

Coletivamente carecemos de uma topografia espiritual e psicológica flexível capaz de orientar criativamente as experiências potencialmente transformadoras vivenciadas por muitas pessoas. O céu e o inferno dos cristãos são reinos aos quais cada um de nós é enviado após morte e lá permanece por toda a eternidade. A terminalidade e a literalidade dessas imagens podem empobrecer mais do que enriquecer nossa vida humana. Garantir nosso lugar no Céu (ao obedecer à Igreja) passa a constituir-se uma necessidade aterradora. Não existe uma segunda chance, de modo que toda ação produz, em sua esteira, perdição ou bem-aventurança.

Em contraste, os correspondentes reinos nas tradições xamânicas (e em religiões orientais como o hinduísmo e o budismo) são reconhecidos como dimensões não-físicas e atemporais da consciência que a alma normalmente transpõe após a morte, mas que também são alcançadas durante o processo de iniciação xamânica ou expansão da consciência; acompanham naturalmente a jornada evolutiva da alma em vez de ameaçá-la de eterna condenação.

Dentro dos conceitos próprios do xamanismo, coerentes com as ideias de numerosas culturas amplamente diferentes, o mundo é dividido em três reinos.


O Mundo Mediano, onde passamos nossa vida terrestre é o único território limitado pelas leis do tempo linear e pelo espaço tridimensional; “acima” dele encontra-se o Mundo Celestial e “abaixo”, o Mundo Infernal.

Estabelecendo uma relação desses três mundos com o atual modelo astrológico, podemos dizer que os planetas que vão até Saturno inclusive estão primariamente relacionados com o Mundo Mediano, enquanto os planetas exteriores correspondem aos Mundos Celestial e Infernal.

Retomando nossa imagem do cavalo, encontramo-la com frequência na cosmologia e nas práticas rituais xamânicas, porquanto em muitas culturas o cavalo está literal e ou simbolicamente presente na sessão xamânica. Representa o “vôo” extático do xamã em transe e facilita o que Eliade denomina “penetração em plano”, a passagem deste mundo para outros mundos. O cavalo representa uma ponte entre o mundo da forma e o mundo do invisível.

Carrega também o morto para outra vida e permite ao xamã procurar as almas perdidas daqueles que estão doentes: trata-se de uma animal funerário e psicopombo, um guia ou condutor que mostra o caminho. Na Ásia Central, quando o xamã está evocando alguma alma errante, um cavalo é amarrado perto dali : seu tremor indicará o retorno da alma.

Pelo de cavalo branco pode ser queimado durante os rituais, evocando assim o animal mágico; o xamã pode sentar-se sobre a pele de uma égua; pode induzir êxtase ao bater num tambor com um bordão que tem na extremidade uma cabeça de cavalo ou ao dançar montado nesse bordão, constituindo rituais simbólicos de seu vôo mágico durante o qual realiza adivinhações e curas.

Essa imagem é representada no mito central de Quiron, analisando a maneira pela qual os gregos representavam a antiga figura do “Curador Ferido”. Conforme foi mencionado no início deste capítulo, a divisão entre o espiritual e o instintual já estava ocorrendo na cultura helênica dessa época. O desenvolvimento do ego heroico encontrava-se numa fase bem avançada, porquanto o homem lutava para separar-se da unidade urobórica com a Grande Mãe e toda a vida orgânica, travando acirrado combate contra ela.

O paradigma xamânico no seu modo arcaico de consciência quase sempre surge em resposta a feridas, traumas, conflitos e privações desse período inicial. Entretanto mesmo nas situações mais efetivas e harmoniosas dessa fase da vida, nosso senso de individualidade desabrocha, em parte, através de confrontos “dolorosos” com um “outro” que devemos aprender que não está sujeito à nossa mágica onipotência.

As frustrações ao nos defrontarmos com um universo que não podemos controlar são próprias do processo de crescimento, e a transição de um campo de consciência unificado que tudo abarca para as formas de pensamento mais diferenciadas a partir das quais nossa linguagem se desenvolve é, na maioria das vezes, dolorosa. As dificuldades específicas ou traumas vivenciados durante esse período inicial produzem ferimentos muito profundos, e, durante os trânsitos de Quiron, são quase sempre essas feridas primevas que novamente começam a sangrar, por assim dizer, implorando maior atenção e cuidados. A reemergência da dor que tem sua origem no período pré-verbal de nossas vidas, seja ela ou não reconhecida em nível consciente, é quase sempre acompanhada de expansão da consciência.

Os trânsitos de Quiron quase sempre acompanham essas expansões; contudo , essas experiências transpessoais não representam somente uma forma de expressar ou evitar nossas feridas. Durante períodos de doença, crise, ou estados de expansão da consciência, podemos interpretar falsamente os sinais da psique e talvez interromper de forma abrupta um processo de cura ou de crescimento global que está para ocorrer.

Em resumo, a consciência xamânica e sua singular “imersão pré-pessoal na natureza do instinto pode ser a companheira arquetípica de qualquer jornada interna provocada pelo nosso estado de sofrimento, uma jornada que irá marcar o prelúdio de uma nova etapa de individualização e expressão do destino pessoal.

A vocação do xamã é entregar-se a esse processo, não importa o que isso pode acarretar. * texto extraído de Melanie Reinhart*